Maracatu Nação Fortaleza

CABEÇA DE NEGRO

DRAGÃO DO MAR

FRANCISCO JOSÉ DO NASCIMENTO

O DRAGÃO DO MAR - Calé Alencar

Francisco José do Nascimento, um dos mais importantes abolicionistas do Ceará, nasceu no dia 15 de abril de 1839, em Canoa Quebrada, então distrito de Aracati, situado no litoral leste do Ceará. Filho do pescador Manuel José do Nascimento e Matilde Maria da Conceição, desde a infância recebeu o apelido de Chico da Matilde.

Ainda recém nascido, teve uma espinha de peixe atravessada na garganta, correndo sério risco de vida. Seus pais valeram-se de Nossa Senhora do Rosário, protetora dos negros, e o menino foi salvo. Aos oito anos, após a morte do pai nos seringais da Amazônia, sua mãe desentendeu-se com um Juiz de Direito e a família teve que abandonar a cidade. O menino Francisco embarcou no navio Tubarão, pertencente ao comendador português José Raimundo de Carvalho, permanecendo nas atividades a bordo até os 20 anos, época em que aprendeu a ler e a escrever e resolveu fixar-se em Fortaleza, casando com Joaquina Francisca, a quem conhecera ainda em Aracati, tendo com ela uma filha de nome Francisca. Chico da Matilde conseguiu nomeação para o cargo de 2o.
Prático da Capitania dos Portos, em 1874, orientando os navios na atracação junto ao cais do porto. Ao mesmo tempo, suas atitudes levaram-no a se tornar uma espécie de líder dos jangadeiros que faziam o transporte dos escravos para os navios e para a terra. Nesse período, aderiu à causa abolicionista e, juntamente com seus colegas, decretou a primeira intervenção política impedindo o comércio de negros no Ceará.

Durante os grandes períodos de estiagem, nos anos de 1877 e 1879, quando atuava como voluntário no socorro às vítimas da seca, o Dragão do Mar conheceu João Cordeiro, homem de convicções republicanas e antiescravista que seria um dos líderes da Sociedade Cearense Libertadora, de cujo estatuto constava o seguinte: Artigo 1o. – Um por todos e todos por um. § único: A sociedade libertará escravos por todos os meios ao seu alcance. Sala de Aço, 30 de janeiro de 1881. No ano seguinte, o Dragão percorre várias cidades do interior cearense, em campanha abolicionista, ao lado de José do Patrocínio, o Tigre da Abolição, que cria, nessa ocasião, o epíteto Ceará, Terra da Luz, como homenagem ao movimento abolicionista em terras alencarinas.

Após a vitoriosa campanha de 25 de março de 1884, data que marca a abolição da escravatura no Ceará, quatro anos antes da Lei Áurea que libertou os escravos em todo o território nacional, o Dragão do Mar seguiu para o Rio de Janeiro, sendo recebido pelo Imperador Dom Pedro II no Paço de São Cristóvão, onde foi alvo de homenagens por seus atos de bravura. Do Rio, escreveu à mulher, Joaquina Francisca, na chegada triunfal ao Rio de Janeiro : ¨O seu velho está tonto com as festas e com os cumprimentos de tanta gente importante¨.

Em 1890, o Dragão do Mar foi promovido a 1º Tenente Honorário da Armada e ocupou o posto de Major-Ajudante de Ordens do Secretário Geral do Comando, na Guarda Nacional do Ceará, título que lhe foi auferido por João Cordeiro, ao tempo em que este ocupou a Presidência do Estado. No ano de 1902, casou-se pela segunda vez, com Ernesta Brígida, sobrinha de João Brígido. Passou a freqüentar, meio a contragosto, as reuniões literárias e a participar de cavalhadas nos subúrbios de Fortaleza. Organizou lapinhas e uma capela em devoção de Nossa Senhora dos Navegantes. Por esses tempos, deixou de participar dos grupos de reisado, composto de moças e rapazes acompanhados por flautas e cavaquinhos, que percorriam as ruas do Seminário da Prainha, entoando os versos :

Aqui estou em vossa porta
em figura de raposa
não vos venho pedir nada
mas o dar é grande coisa

Em 1904, aos 65 anos, o Dragão do Mar teve ativa participação na Revolta dos Catraieiros, movimento de pescadores e chefes de família em reação ao fato de haverem sido sorteados para o serviço militar, tendo que seguir para o sul do país a bordo do navio Maranhão. O edital de convocação havia sido publicado com apenas 72 horas de antecedência do embarque, pegando a todos de surpresa, muitos deles com oito, dez filhos, e alguns já avós. Por toda a Praia do Peixe, a antiga Praia de Iracema, ouviu-se a ordem do Dragão do Mar : Ninguém embarca!

O governo cumpriu a ameaça de embarcar os amotinados à força, com uma rajada de tiros e uma carga de baionetas. Dos 200 homens, sobraram 90 feridos. Queremos justiça!, assim reagiu o Dragão do Mar, liderando uma marcha que foi bater nos jardins do Palácio da Luz, sede do governo. O presidente, Pedro Borges, acuado, ordenou a volta da tropa aos quartéis. O Dragão do Mar passou a sofrer novas perseguições, sendo preterido no serviço de praticagem, e viu-se obrigado a intensificar suas atividades no comércio, vindo a falecer no dia 6 de março de 1914, em meio aos ataques dos jagunços do Padre Cícero com o intento de derrubar o presidente Franco Rabelo.

Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, é um dos mais importantes personagens da história do Ceará, tendo incluído seu nome na galeria dos heróis nacionais na luta pela libertação dos escravos.

DRAGÃO DO MAR

Calé Alencar
Hoje eu sou Dragão do Mar
No coração da cidade
Não se embarcam mais escravos
Nos portos do Ceará
Preto velho, preto livre
Negro é o canto que virá
Trazendo luz e esperança
Bate maracatucá
Hoje eu sou Dragão do Mar
Dos ferros que acorrentaram
O preto na penitência
A ciência de nobre afro
Fez um agogô pra tocar
Loas de maracatu
Cantigas de liberdade
Hoje eu sou Dragão do Mar
No coração da cidade
Hoje eu sou Dragão do Mar