Maracatu Nação Fortaleza

CABEÇA DE NEGRO

ALBERTO NEPOMUCENO

Nas palavras do escritor Mário de Andrade, Alberto Nepomuceno merece considerações especiais : ‘Dentre os compositores de sua geração, é ele o mais intimamente nacional de todos’. Nascido em Fortaleza no dia 6 de julho de 1864, Nepomuceno atuou como pianista, organista, professor, compositor e regente. Foi o pioneiro ao compor e cantar em português, criando o lema : ‘Não tem pátria um povo que não canta em sua língua’. Foi um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, tendo estudado em Roma, Viena, Berlim e Paris com renomados mestres, a exemplo de Sgambatti, De Sanctis, Lechetitzki, Guilmant e Von Herzogenberg. Também regeu festivais de música brasileira em Bruxelas, Paris e Genebra.

Filho de Vitor Augusto Nepomuceno e Maria Virgínia de Oliveira Paiva, foi iniciado nos estudos musicais por seu pai, violinista, mestre de banda e organista da Catedral de Fortaleza. Alberto Nepomuceno foi criado em Recife, onde começou a estudar piano e violino. Aos 18 anos já era diretor e regente da Orquestra do Club Carlos Gomes. A convivência com alunos e mestres da Faculdade de Direito do Recife foi fundamental para a postura política que viria a adotar mais tarde. Entre estes nomes estavam Alfredo Pinto, Clóvis Bevilácqua e Farias Brito.
Neste período, a Faculdade de Direito era um grande centro intelectual do país, onde borbulhavam os estudos sociológicos de Manuel Bonfim e Tobias Barreto, que acabaram despertando em Nepomuceno o interesse pelos estudos da língua alemã e da filosofia. O compositor também tornou-se um atuante defensor das causas republicanas e abolicionistas. Os ideais políticos continuaram em evidência quando retornou ao Ceará e Nepomuceno deu seqüência ao seu sentimento abolicionista colaborando com vários jornais ligados à causa. Este fato acabou interferindo em seu pedido junto ao governo imperial para custear uma temporada de estudos na Europa. Nepomuceno teve seu pedido indeferido. Em 1885, mudou-se para o Rio de Janeiro, passando a acompanhar um período de efervescência social, política e cultural. No Rio, continuou seus estudos de piano no Beethoven Club, onde depois foi nomeado professor. O clube tinha em seu quadro de funcionários ninguém menos que Machado de Assis, que trabalhava como bibliotecário. Nepomuceno fez parcerias com poetas e escritores em várias composições como Artemis (texto de Coelho Netto), Coração Triste, com Machado de Assis e Numa Concha, com Olavo Bilac. No ano anterior à abolição da escravatura, Alberto Nepomuceno compôs Dança de Negros (1887), uma das primeiras composições a utilizar a influência dos ritmos afro-descendentes na música brasileira.

Finalmente, veio a oportunidade para estudar na Europa, em agosto de 1888. Em Roma, matriculou-se no Liceo Musicale Santa Cecilia. Dois anos depois, partiu para Berlim, onde passou a ter o domínio da língua alemã, ingressando na Academia Meister Schulle. Nas férias, ia assistir a concertos de Brahms, em Viena. Em 1893, casou-se com a pianista norueguesa Walborg Bang, que era aluna de Edvard Grieg, o mais importante compositor norueguês da época. O casal foi morar na casa de Grieg. Essa amizade foi fundamental para Nepomuceno elaborar seu ideal nacionalista, posteriormente. No ano seguinte ao seu casamento, já estava regendo a Filarmônica de Berlim com duas obras suas. Mas o compositor quis aprimorar seus estudos em Paris, onde conviveu com grandes mestres. Lá, assistiu à estréia mundial de Prélude à l’après-midi d’um faune, de Claude Debussy. Nepomuceno foi o primeiro a apresentar esta obra no Brasil, em 1908, nas festas do Centenário da Abertura dos Portos. Em 1900, marcou uma entrevista com o diretor da Ópera de Viena, Gustav Mahler, buscando negociar a apresentação de sua ópera Artemis. Contudo, o encontro foi cancelado, pois Nepomuceno adoeceu gravemente. O compositor realizou um concerto histórico em 1895, que lhe rendeu muitas censuras e polêmicas. Apresentou pela primeira vez, no Instituto Nacional de Música, uma série de canções de sua autoria em português. Esse fato gerou fortes críticas por parte dos defensores do canto em italiano. Mas a luta pela nacionalização da música erudita se tornou ainda mais presente depois que Nepomuceno passou a dirigir a Associação de Concertos Populares, promovendo o reconhecimento de compositores brasileiros. Alberto Nepomuceno foi incentivador de grandes compositores nacionais, entre eles Heitor Villa-Lobos, cujas partituras eram impressas no verso das edições contendo obras de Nepomuceno.

A Série Brasileira, uma de suas obras mais conhecidas, considerada um marco inicial do nacionalismo, é dividida em quatro partes. Nesta peça, o compositor mistura folclore, o maxixe carioca, a música nordestina e ritmos afro brasileiros. No dia 16 de outubro de 1920, aos 56 anos, faleceu o notável compositor cearense. Seu grande amigo Otávio Bevilácqua conta que o Alberto Nepomuceno começou a cantar quando previu a proximidade da morte. Alberto Nepomuceno persistiu em seu ideal até consolidar sua obra como uma das vertentes mais férteis da música brasileira. Dele, disse certa vez o compositor Villa-Lobos : ‘Eu não teria escrito minhas canções sem Nepomuceno’.

Principais Obras de Alberto Nepomuceno

Ópera

Porangaba (1897); Ártemis (1898); e Abul (1905).

Música Orquestral

Scherzo Vivace (1893); Sinfonia em Sol Menor (1893); Suíte Antiga (1893); Série Brasileira (1896); Andante Expressivo (1902); Seis Valsas humorísticas (1903), para Piano e Orquestra; O Garatuja (1904).

Música de Câmera

Três Quartetos de Cordas; Trio em Fa Sustenido Menor (1916).

Música para Piano Solo

Dança de Negros (1887); Sonata (1893); Galhofeira (1894); Tema e Variações em La Menor (1902); Variações Sobre Um Tema Original (1902); Noturno n.° 1 (1910); Noturno n.° 2 (1912).

Música Vocal

Canto e orquestra
Medroso de Amor (1894); Epitalâmio (1897); e Filomela (1903).
Canto e Piano
Ora Diz-me a Verdade (1894); Oração ao Diabo (1902); Coração Triste (1903); Trovas Tristes (1905); Hidrófana (1906); Canção da Ausência (1915); Canção do Rio (1917) A Jangada (1920); e A Grinalda (s/d).
Canto e Orquestra
Medroso de Amor (1894); Epitalâmio (1897); Filomela (1903); Trovas n.° 1 e 2 (s/d); e Xácara (s/d).
Coro
As Uiaras (1896), para Coro Feminino.